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Lojas de alta qualidade ambiental

 

por Ricardo Pastore


Não dá para falar em expansão no varejo sem incluir a questão ambiental como parte da estratégia do negócio. O varejo entrou de vez na onda da preservação da ecologia e conta com a privilegiada posição de quem lida diariamente com o consumidor final. A partir desse principio, tende a capitalizar mais rapidamente que outros setores os investimentos que realiza em favor da sustentabilidade.

Todos devem se lembrar do episódio do boi pirata. A partir do momento que as grandes redes varejistas decidiram não mais vender produtos de origem duvidosa, obtiveram imediato apoio de seus clientes e da opinião pública de maneira geral. Esta é a força do varejo: lidar com o consumidor final e construir com ele as regras que desenharão os padrões de consumo do futuro.

As lojas vão ganhando contornos diferenciados ao adotarem a estratégia ligada à questão da preservação do meio ambiente. As principais redes começam a desenvolver seu formato, entre elas Pão de Açúcar, Walmart e Leroy Merlin. É uma concepção bem diferente da de uma loja convencional. É necessário, antes de tudo, a construção de um novo conceito baseado em premissas que servirão de briefing para as empresas que serão contratadas para a realização da obra.

Para ajudar, já existem institutos certificadores que oferecem os protocolos necessários para que a loja cumpra todas as etapas até obter o status de loja de alta qualidade ambiental, desde a obra até sua inauguração e operação diária a partir de então.

Todos os detalhes são previstos, desde o jardim com plantas e flores da própria região e outras para atraírem passarinhos, por exemplo. A reutilização de materiais presentes em construções anteriores no caso de demolições também faz parte do projeto, assim como o estacionamento privilegiado para bicicletas, veículos que utilizam combustíveis flex e aquelas vagas destinadas a pessoas da melhor idade e às que possuem necessidades especiais.

A história da região é sempre preservada e fica evidente em painéis fotográficos que homenageiam a comunidade local, instalados ao lado de outros que demonstram números obtidos com economia em energia elétrica, água e esgoto, lixo, embalagens e outros.

Um dos maiores desafios para os gestores é comunicar os novos conceitos e as inovações existentes, pois nem tudo que se faz se torna possível de ser visto pelo consumidor durante suas atividades de compras diárias.

Partindo para o aspecto físico, no piso podemos perceber uma grande mudança. Aqueles revestimentos cerâmicos ou com granito deixam de ser utilizados porque exigem manutenção e uso de cera para a manutenção. Entra em seu lugar um piso de cimento polido, mais econômico e com bom resultado final, mas ele exige comunicar aos clientes os motivos da existência deste tipo de solução, afinal nem todas as pessoas são obrigadas a gostar e a entender todas as inovações do projeto.

A água é uma preocupação desde o início da obra. O canteiro utiliza sempre que possível água de reúso, que também será utilizada na manutenção da loja e limpeza e descarga de banheiros. São construídas caixas de captação de água da chuva que, depois de tratadas, retornam para usos específicos. Ainda no canteiro, muita coisa é organizada para a possibilidade de reúso ou reciclagem. Um dos melhores exemplos são os sacos de cimento que não são mais jogados fora, e sim reciclados.

Até os caminhões contribuem com a limpeza das redondezas. Antes de saírem do canteiro têm suas rodas lavadas (com a água de reúso) para não sujarem as ruas por onde passam.

Muito cuidado também é tomado com o consumo de energia, que passa a ter aliados como tetos translúcidos parcialmente, ar condicionado inteligente –que mantém a temperatura sem a necessidade de serem ligados e desligados constantemente–, placas de energia solar e iluminação com tecnologia LED. O uso dos chamados materiais ecoeficientes, como tintas à base de água, não podem faltar, assim como a instalação de válvulas de descarga com fluxo duplo e mictórios com sistema de sucção sem uso de água. Os custos de construção não são assim tão mais altos. Em alguns casos não chegam a 10%, mas o retorno é garantido com as economias geradas e com os novos clientes que reconhecem tantos diferenciais como parte fundamental da experiência de compra para os dias atuais e futuros.

Os funcionários são parte fundamental, pois vão “vender” a idéia aos clientes, que certamente farão seus comentários, assim como os fornecedores que deverão contribuir com os novos padrões ao oferecer produtos e serviços que consolidem o modelo.

Novos conceitos, metas claras e comunicação eficaz a clientes e comunidades começam dar vida ao que até outro dia fazia parte apenas do discurso ideológico. As empresas estão pondo em prática o varejo do futuro e seus clientes o estão aprovando. Esse é um caminho sem volta. E em rumo da evolução.

Ricardo Pastore
Prof. Msc., coordena o Núcleo de Estudos do Varejo da ESPM, é consultor especializado em varejo e sócio do Growbiz Group

 

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