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Crise foi amena, mas Canadá tem mudanças na indústria de cartões

 

por Caio Blinder


Como no seu único vizinho, os EUA, a onda de mudanças no setor de cartões é intensa no Canadá. É verdade que o país foi um dos menos afetados no clube dos ricos pela crise econômica de 2008/2009. Seu setor bancário nunca trabalhou com margens tão altas de risco e o mercado imobiliário não embarcou em aventuras ao estilo subprime. Mas, obviamente, o Canadá não está totalmente imunizado. A indústria de cartões está atravessando uma grande transformação devido a fatores como mudanças tecnológicas, crescente regulamentação governamental e impacto da recessão. As projeções são de juros mais baixos, mais flexibilidade dos pagamentos e acirrada competição dos emissores pelos clientes mais valiosos.

O principal motor das mudanças é o novo Código de Conduta do governo, através do qual as companhias de cartão de crédito devem acatar regras mais rigorosas de transparência, o que irá permitir aos consumidores comparações mais evidentes entre os produtos financeiros. Além de tudo, é a contínua invasão de novas tecnologias, trazendo mais diversificação e dinamismo aos meios de pagamento. A disseminação de novas ferramentas, como cartões pré-pagos, força os emissores a forjar relações mais sólidas com a base de clientes.

A crise econômica no Canadá foi mais amena do que nos EUA e na Europa, mas de qualquer forma os níveis de endividamento do consumidor são sem precedentes. Os resultados são mais cautela dos emissores ao emprestar, e antenas mais ligadas para entender o comportamento do consumidor. Um exemplo recente mostra que os canadenses que usam cartão para comprar bebidas alcoólicas no bar pagam juros mais altos do que aqueles que usam cartão no dentista.

Uma provável consequência será a fusão das contas bancárias às de cartão, com a combinação de poupança e de dívida. De acordo com análises em relatórios de consultorias canadenses, as mudanças deverão levar a juros mais baixos e a limites de crédito mais altos para os melhores clientes.

Benefícios oferecidos pelos emissores deverão ter mais importância estratégica. Atualmente, 30% dos consumidores escolhem cartões de acordo com o tipo de benefício vinculado, em geral pontos acumulados que são usados ao solicitar passagens aéreas. Mas está crescendo o interesse por benefícios que oferecem gratificação instantânea no ponto-de-venda.

No geral, os emissores canadenses já atuam em uma sociedade em que existe menos exuberância para usar cartão e gastar prodigamente do que nos EUA. A tendência será reforçada.

Bem, no país ao sul do Canadá, nós ainda queremos pensar que a Grande Recessão ensinou alguma coisa sobre os perigos da festa da gastança para os consumidores. Expressões como “desavalancagem” e “nova frugalidade” prosperam. Mais de dois terços dos entrevistados de uma pesquisa Kiplinger disseram que se tornaram mais frugais de um ano para cá. Americanos apregoam que agora são discípulos da parcimônia.

Existem alguns sinais positivos de mais responsabilidade fiscal (isto, é claro, não vale para o Governo Obama). Recente estudo do grupo Trans Union mostrou que em um ano a média de dívida por portador de cartão de crédito caiu de US$ 5.776 para US$ 5.165. Também estão em baixa os pagamentos atrasados e a inadimplência mais séria no cartão. A taxa de poupança dos americanos, que chegou a cortejar o zero, teve um aumento para 3%.

Mas é preciso ser um pouco agnóstico com esta religião da nova frugalidade. Trata-se mais de um pequeno ajuste fiscal do que uma mudança radical do comportamento do consumidor. Gastar parece estar no DNA dos americanos. Basta ver que no primeiro semestre, mais para o seu começo, no quadro de uma frágil recuperação, foi possível sentir uma aceleração dos gastos do consumidor. É como se os americanos precisassem de uma desculpa para voltar correndo ao shopping center.

As turbulências no mercado voltaram em maio/junho, na esteira da crise europeia, mas no círculo vicioso é muito fácil o consumidor se animar novamente. Ironicamente, apesar do quadro desolador no mercado de trabalho e do teimoso alto desemprego, a compensação real por trabalhador continua num patamar saudável — outro motivo para estimular o consumidor, embora os índices de confiança no setor estejam frouxos.

O jogo psicológico é infindável. Os consumidores têm uma relação de amor e ódio com os cartões de crédito. Numa expressão consagrada, eles detestam os juros e as taxas, mas amam a conveniência. É verdade que os critérios para crédito estão mais rigorosos, mas as ofertas de cartão também estão. As caixas do correio dos americanos estão novamente recheadas com aquela desagradável papelada que promete mundos e fundos.

Os emissores tinham dado um tempo a estas ofertas excessivas na Grande Recessão, quando o crédito enxugou, e também durante o debate que precedeu a nova legislação do setor. Mas os tradicionais esforços de marketing voltaram à carga. O alvo preferencial são consumidores com boa pontuação de crédito. O pessoal de notas mais baixas não será submetido ao assalto das ofertas de cartão enquanto não acontecer a recuperação do mercado imobiliário. E o cenário desse setor não é promissor.

Para o turista brasileiro que aparecer em Nova York, aqui vai um serviço de utilidade pública. Turista fanático para usar cartão de crédito, por gentileza dirija-se à esquina das Ruas 71 e Broadway, onde trabalha o camelô autorizado Cheikh Fall, com sua autêntica variedade de chapéus, cachecóis e guarda-chuvas. Confie no camelô, você pode pagar com cartão.

Cheikh Fall é um dos dez comerciantes de rua (palavra chique para camelô) que integram o piloto da ONG The Street Vendor Project para que os vendedores ambulantes sofistiquem os métodos de pagamento. Imagine pagar pelo cachorroquente ou pelo pretzel com cartão. As máquinas que custam centenas de dólares foram doadas para o Street Vendor Project pela Century Payments, uma companhia de processamento de transações.

O teste em curso tem duração de quatro meses ao fim dos quais será decidida a expansão do programa. O lance acontece quando a economia de Nova York se recupera da profunda recessão, e camelôs reclamam de novas regulamentações municipais. Recentemente foram anunciados planos para limitar o número de camelôs perto dos parques mais populares da cidade. Pesquisas mostram que os residentes de Nova York ainda não estão preparados para pagar ao vendedor ambulante com cartão, mas mudanças culturais acontecem. Quanto a você, turista, não se acanhe e pague com cartão se trombar na carrocinha de cachorro-quente do Munnu Dewan, na esquina das Ruas Lafayette e Reade, lá em Lower Manhattan.

Caio Blinder
Jornalista, participa do programa Manhattan Connection (GNT, Globosat) e é correspondente da rádio Jovem Pan em Nova York

 

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